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PHAEDRA’S LOVE

Phaedra’s Love é uma adaptação da tragédia de Sêneca, que faz também uma paródia da família real na Inglaterra. A estrutura dramatúrgica de Phaedra’s Love apresenta personagens mais unificados, com identidades fixas e um “enredo” mais tradicional em relação às demais peças de Kane. Trata-se de um “formato” de sátira, apresentando também muitas características que definem o “In-yer-face theatre” (como sexo, violência e palavrões), apesar de Kane resistir a ser rotulada como pertencente a este ou aquele movimento. Há, de todo modo, algo mais “confortável” no pacto que Phaedra’s Love estabelece com o público. As personagens são mais caricaturais, pintadas em tons fortes, lembrando Histórias em Quadrinhos, ou desenhos animados para adultos. Os próprios nomes indicam um distanciamento e ao mesmo tempo apontam para a tragédia: Phaedra, Hipólito, Teseu e Strofe.

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BLASTED!

Autor: Juliana Pamplona, Direto da Questão de Crítica.

Blasted se constrói em torno de uma relação abusiva entre Ian (um homem de quarenta e cinco anos) e Cate (uma jovem de vinte e um) com problemas mentais. A primeira parte de Blasted se passa num quarto de hotel onde uma relação desigual e violenta é evidenciada entre eles graças a uma economia de palavras que compõe falas pungentes. O desdobramento se dá quando uma explosão (indicada por um buraco de bomba no cenário) torna esta relação íntima um espelho para um mundo em guerra. No ambiente do hotel detonado, um novo personagem ganha foco, um soldado anônimo. A lógica da guerra toma conta das relações e Ian passa do pólo de torturador de Cate para o de vítima do soldado. A peça apresenta uma série de horrores: amputação, canibalismo, estupro, tortura etc. As personagens falam de maneira crua e seca.

A representação da violência também apresenta inúmeros desafios. A própria encenação é convidada a achar recursos figurativos que deem conta de imagens de intensidades extremas que não poderiam ser representadas naturalisticamente. Imagens como a de um personagem em estado deplorável – cego e faminto em situação de guerra, que come um bebê morto, fazem deste pacto de recepção do público, “um pacto difícil”. Porém há uma especificidade nesta questão das imagens teatrais: elas devem se apresentar como teatrais. Não há nesta ação um esforço cênico de que a cena do canibalismo, por exemplo, pareça “real”, entretanto, a própria indicação em cena de que isto é feito suscita repulsa pela parte do público que não se propuser imaginar o ato.

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Personagens nas peças de Sarah Kane

Breve estudo sobre a dramaturgia da autora inglesa

Autor: Juliana Pamplona, Direto da Questão de Crítica.

Sarah Kane trabalha com a (des)figuração como um dos elementos -chave que atravessa o corpo das personagens e que repercute, de maneira intensa, na estrutura dramática do texto. Na desfiguração das personagens, o corpo é levado a estados intensos, como a amputação e o gozo, até a figuração mínima onde há apenas vozes. A fala seca e precisa, por vezes lacônica e “insuficiente”, funciona como uma extensão deste “corpo” cuja voz e discurso são explorados quando “não é possível dizer nada”. As identidades desfeitas ou não fixas também são características presentes na investigação dramatúrgica de Sarah Kane, em que o lugar de onde estas vozes falam (especialmente em Crave e 4.48 Psychosis) é constantemente desestabilizado. Estruturalmente, os elementos como o tempo, o espaço também sofrem desestabilizações, onde convenções de unidade e definições precisas são transgredidas ou simplesmente não são oferecidas ao público.

O tempo – que é tratado ora de modo impreciso, ora obedecendo a um ritmo rigoroso – é (des)construído por elementos diversos como a repetição, a desarticulação das falas, as respirações pontuadas etc. O espaço, igualmente instável, é desestabilizado por meio de recursos como a detonação radical do cenário entre uma cena e outra, a inserção de personagens de outro “contexto”, a ligação frágil entre as cenas; o “sentido” analógico das relações interpessoais entre personagens, nas quais o espaço, ao invés de ponto de apoio, ganha mobilidade ou permanece indefinido. A noção de “enredo” também é desconstruída de maneira progressiva ao longo das cinco peças de Kane, implicando numa ação que oscila entre a atrofia de sua importância para a estrutura dramática e a construção de fluxos de ações, que se dão apenas através das falas, ações de sustentabilidade.

O presente texto faz parte de uma série de estudos realizados durante o meu período de mestrado em Artes Cênicas na UNIRIO (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro) e aborda as cinco peças da autora inglesa Sarah Kane (1971 – 1999) a partir das convenções de personagens.


Vida e obra de Sarah Kane

Em um dia frio de fevereiro de 1999, a dramaturga Sarah Kane foi encontrada pendurada em um banheiro no King’s College Hospital de Londres. Foi apenas dois dias após uma tentativa de suicídio anterior. Nesse momento, parece que os demônios Kane finalmente haviam apanhado com ela. Como um reflexo, a sua carreira tinha queimado brilhantemente, mas foi tudo muito rapidamente apagado. Ela se tornou a Jimi Hendrix da British, poetiza, artista e profeta cujas palavras soaria muito tempo depois de sua passagem.

Sarah Kane nasceu em Essex em 1971. Sua família era profundamente religiosa, como foi Kane em seus primeiros anos – um palco que ela viria a renunciar. Durante sua adolescência, ela se envolveu no teatro local. Após se matricular, ela estudou em universidades de Bristol e Birmingham. Apesar de ter começado com a intenção de ser atriz, ela logo se sente atraída pela escrita. Em Birmingham, ela começou a escrever, embora fizesse isso em segredo, e não como parte de seu curso. O resultado foi Blasted. O jogo foi apresentado com alunos no fim do ano e a peça chamou a atenção de um agente. Blasted foi realizada no Royal Court Theatre Upstairs, em 1995 – e a reação foi imediata.

Alguns críticos de Blasted, disseram que (entre outras coisas), foi “uma festa repugnante de imundície” e como “ter realizado toda a sua cabeça em um balde de miudezas. Parece que estes ataques profundamente afetaram Kane, o que talvez explique algumas de suas ações posteriores.

O grande mestre do teatro britânico, Harold Pinter, foi fortemente em defesa de Kane. Ligando os próprios críticos, Pinter rejeitou suas farpas como mal-informadas e sugeriu que o jogo era demasiado complexo para eles.

Mais sobre o jogo apareceu na televisão britânica e houve um animado debate sobre o trabalho, em particular a avaliação Blasted – em função da extrema violência – muitas vezes em Shakespeare.

Montagem de Blasted!

Apesar da polêmica sobre Blasted, o Gate Theatre, em Londres, encomendou a Kane para escrever e dirigir Phaedra’s Love, uma atualizada, sem socos, e puxada versão do mito grego sobre o amor entre Hipólito e sua madrasta. Foi produzido em 1996. A peça é frequentemente considerada como o mais fraco de Kane, o que talvez explique por que a reação da crítica foi muito mais suave.

Montagem de Cleansed.

Kane escreveu então Cleansed. Com ecos de sua experiência na universidade, Cleansed é definida em um campo de concentração do tipo universitário por um médico vicioso e traficante de drogas. Sua utilização de elementos como mutilação e abuso de drogas novamente distanciou o público conservador. Afetada por sua reputação crescente, Kane decidiu escrever a sua próxima jogada, Crave sob o pseudônimo de Marie Kelvedon. Foi inaugurado em 1998, e é possivelmente o mais acessível trabalho de Kane para o público mainstream. Um poema para quatro vozes, Crave é muitas vezes considerado pelos fãs de seu trabalho, como sua realização final.

Enquanto Crave estava recebendo ótimas criticas, Kane estava verificando-se em Maudsley Hospital lutando contra uma depressão. Após a sua recuperação, Kane virou a mão para seu trabalho final, 4.48 Psicose. O título, quase insuportavelmente irônico agora, refere-se ao momento em que a maioria dos suicídios ocorrem.

Ela completou a peça em janeiro de 1999, mas antes que pudesse ser encenado sofreu uma overdose de pílulas para dormir. Sua colega de quarto encontrou-a e apressou-la ao hospital. Mas esse ato de bondade estendeu-lhe a vida por apenas dois dias. Ela tinha 28 anos.

Montagem de Psychosis 4:48.


Especial do mês: Sarah Kane

Depois das obras do dramaturgo britânico Harold Pinter, o Cénico apresenta outra britânica que, provavelmente influenciada pelas obras de Pinter, escreveu textos inclassificáveis e singulares. A produção teatral de Sarah Kane pontua sua própria história de vida:

“Sarah Kane nasceu em Essex, Inglaterra, no dia 3 de Fevereiro de 1971. Estudou teatro na Universidade de Bristol especializando-se em Artes na Universidade de Birmingham.

Mel Kenyon encantou-se com sua peça Blasted (Ruínas) – uma produção estudantil – e tornou-se seu agente. A partir daí, muitos de seus trabalhos passaram a ser representados no Royal Court Theatre e logo reconhecidos e encenados pelo mundo.

Sarah utilizou-se do pseudônimo Marie Kelvedon para escrever Crave (Falta) criando uma pequena biografia para seu alter ego. Tal medida foi tomada como forma de fugir do furor dos críticos que haviam reagido de forma truculenta ao escreverem sobre Blasted, caracterizando-a como “repugnante e obscena”.

A obra de Sarah Kane se caracteriza pela profundidade psicológica dos personagens e pelas imagens agressivas e chocantes.

Porém, a depressão fez com que a dramaturga fosse internada por duas vezes em hospitais psiquiátricos. Nesse período extremamente conturbado ela escreve 4.48 Psychosis (Psicose 4:48), sua última e mais radical peça. Numa narrativa densa, fragmentada, não-linear 4.48 evidencia uma mente conturbada, depressiva e esquizofrenia à beira da loucura. 4:48 seria a hora em que a maioria dos suicídios acontecem. Esse texto só é encenado após a sua morte no Royal Court Theatre em 23 de Junho de 2000 sob a direção de James MacDonalds (o mesmo que produziu Blasted e dirigiu Cleansed).

A depressão faz com que Sarah Kane tente suicídio sem sucesso com pílulas para dormir, mas em 20 de fevereiro de 1999 a escritora inglesa se enforca no banheiro do London’s King’s College Hospital aos 28 anos.”


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