Cénico entrevista Rogério Viana

“Só vira teatro quando ganha o espaço do palco. Antes é apenas intenção”

Jornalismo, poesia e dramaturgia se misturam para explicar as referências de Rogério Viana. Após uma troca de emails descobrimos um pouco mais sobre as referências e o processo de criação do autor de “Entrevista com o devorador  de ratos”.

Cénico – A título de introdução, nos conte um pouco como começou seu envolvimento com o teatro e quando começou a escrever.

RV – (..) Em 2002 fui morar em Salvador e, lá, trabalhando numa editora universitária acabei fazendo contato com duas atrizes que me propuseram escrever uma peça de teatro. Acabei me motivando e com um tema em mente, em uma semana escrevi minha primeira peça de teatro que nasceu com o nome de “O medo de te perder”, mas que, depois, em uma versão um pouco mais enxuta foi transformada em “Nas razões do nosso medo”. Depois de ter retornado de Salvador, em 2003 tive oportunidade de ver meu texto teatral ser lido por duas atrizes e um ator, na cidade de Piracicaba. E, definitivamente eu sentia que, a partir daquele momento eu tinha mesmo que estudar mais, pesquisar muito mais e escrever ainda muito mais o que fosse diretamente ligado à dramaturgia, ao teatro. (…)

Cénico – Sempre que leio um texto, como um exercício de desconstrução da obra, fico imaginando quais as possíveis referências do autor. Como é seu processo criativo? Finalizo essa pergunta com um trecho de pergunta de Dionelia para Lourenço: “Você pesquisa para imaginar? Ou a imaginação brota espontaneamente?”

RV – Sabe… é uma pergunta interessante essa. Eu disse, na primeira resposta, que sempre fui guiado no trabalho de jornalista a ter que cumprir pautas. Isso me obrigou a ir atrás de um tema (no caso das reportagens) e a pesquisar, a ouvir, a entrevistar. Depois a resumir tudo e escrever uma matéria, uma reportagem. No que você chama de “desconstrução”, esse exercício de caminhar do fim para o começo de uma obra, no sentido de entendê-la, de percorrer, talvez, os mesmos caminhos que o autor de textos tem que trilhar na feitura de sua obra, eu me motivei a escrever dramaturgia a partir de certas “pautas” (…)

Cénico – Em “Triste Inventário de Perdas”, tem uma passagem no esquete “Os livros que ficaram por lá” onde você cita diversos autores que, de alguma forma ou de outra, te influenciaram – e influenciam. Quais são as suas principais referências na criação dramatúrgica?

RV – Ah, sim… aquela lista de autores foram autores que eu pude ler, outros que eu nunca li, e vários, sim, vários deles foram autores dos livros que certa pessoa, certa vez, fez com que aqueles livros deixassem mesmo de ser meus. Mas isso pode ser ou não verdade. (…) Eu era fascinado pelas histórias do Monteiro Lobato. E foi dele a inspiração para ler muito, sempre, todos esses longos anos. Mas, também, somos, como disse antes, seres permeáveis pelas leituras e pelas vivências que fizemos e tivemos. Tudo pode ser referência na criação dramatúrgica. Tudo mesmo.

Cénico – Não pude deixar de notar a semelhança entre os nomes das personagens de “Entrevista com o devorador de ratos” e o escritor, ator e dramaturgo Lourenço Mutarelli. Queria que você nos contasse sobre essa escolha.

RV – Espertinho, você, hein? Pois então… é o que eu havia dito. Tudo pode ser referência na criação dramatúrgica. E no caso da escolha desses nomes foi feito mesmo de forma deliberada. Só que a referência ao Lourenço Mutarelli, de quem nunca li nenhum livro, mas assisti – e adorei – o filme “O Cheiro do Ralo”, que foi inspirado num dos seus livros não se deu por referência ou influência direta. Eu havia acabado de ler o livro “Os ratos”, do Dyonelio Machado. Um livrinho escrito nos anos 1930 muito interessante e inteligente e que, na edição que tenho, traz uma pequena entrevista com ele, o autor. A palavra ratos levou-me a fazer uma ligação entre ralo, sim, ralo que leva águas usadas para o esgoto. E esgoto leva a ratos. Uma coisa liga à outra. Então brinquei com isso (…)

Cénico – Quando veio para Maringá, Roberto Alvim comentou em tom profético: “De dois a cinco anos, Curitiba estará para o teatro como Seattle estava para o rock nos anos 90”. Como jornalista, você acompanha o otimismo de Alvim? Como você vê a cena curitibana de hoje?

RV – (…) Curitiba, sim, Curitiba será – e já está se transformando – num celeiro de novos e produtivos autores. (…) Mas uma montanha de textos de teatro, para mim, não tem o mínimo valor, sejam esses textos “singulares” ou de “qualidade”. Mas você dirá, mas isso é uma absurda afirmação. E eu defendo meu ponto de vista com uma questão muito simples. De que adianta você ter uma enxurrada de autores, uma montanha de textos escorrendo pelos vales da dramaturgia se poucos, pouquíssimos mesmos, textos forem levados ao palco. As bandas de garagem de Seattle não ficaram restritas às garagens. (…)

Cénico – Para encerrar esse primeiro bloco, cito um trecho de “Entrevista com o devorador de ratos”: “Nenhuma água fará sua sede aplacar. Você não necessita de água. Sua sede é outra. Você sabe o que pode saciar essa sede interminável.” Sua produção é uma tentativa que curar uma espécie de sede?

RV – Todos nós temos sedes que não se aplacam com essa boa água cristalina. (…) Quem escreve quer, sobretudo, ser reconhecido. Eu estou apenas escrevendo e fazendo escoar o que em mim, ao longo dos anos, está retido. O que virá depois, não sei. Ocupo-me apenas em escrever. Ah… lembrei-me de uma frase do autor Oscar Wilde: “O artista não tem convicções éticas. Uma convicção ética em um artista é um imperdoável maneirismo de estilo”. E arremato: Não se faz boa literatura e boa literatura dramática com boas intenções. (…)

Logo abaixo segue a íntegra:

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