Harold Pinter: lúcido e devassador

Da série de posts do Especial do Mês com Harold Pinter. Texto do Doutor em literatura, Eduardo Guerrero Del Rio, direto de Santiago, do Chile, postado no Mirada Global.

“Natal de 2008. Nas casas chilenas, a família reunida e os meninos ansiosos, esperando o Papai Noel. Do outro lado do oceano, na invernal Europa, nesse mesmo dia falecia o dramaturgo inglês Harold Pinter, uma das vozes mais significativas da dramaturgia mundial do século XX, após uma luta de seis anos contra um câncer no esôfago.

Falar de Pinter é falar do teatro do absurdo; é falar de textos que, desde o início dos anos 50, começaram a calar fundo numa época em que os desatinos da Segunda Guerra Mundial deixara um sabor amargo. Para que reconstruir nossas casas e nossas vidas se existe o temor a um novo conflito? Nessa época, tanto Albert Camus como Jean-Paul Sartre levantaram teorias existencialistas e o pessimismo era uma espécie de leitmotiv cotidiano. Assim como o niilismo. O conhecido ensaio O mito de Sísifo, de Camus, esclarece com profundidade o que se vivia: Sísifo, castigado pelos deuses, deve empurrar uma rocha, sem parar, até o cume de uma montanha, de onde caia e ele deveria começar o trabalho novamente. O absurdo, o porquê e também o como. A loucura.

No início, Eugenio Ionesco e Samuel Beckett é que escreveram obras nas quais, por trás do aparente absurdo, havia um angustiante chamado de personagens desamparados, que esperavam algum sinal e que brincavam para “preencher” esse tempo cíclico. Trabalhos como A cantora calva (Ionesco) e Esperando Godot (Beckett), entre os mais significativos, constituem o paradigma desse “absurdo” superficial que escondia mais de um significado. Na narrativa, é o absurdo labiríntico de Franz Kafka.

Sem dúvida alguma, Harold Pinter foi o continuador desta tendência na década dos anos 60, com uma obra como O amante. Mas voltando no tempo, no final do século XIX, num teatro parisiense o dramaturgo Alfred Jarry fez com que um de seus personagens pronunciasse o já mítico “merde”. Nesse momento, algo mudou no teatro. Na obra O Amante, a concisa pergunta de Richard a sua mulher: ” Seu amante vem hoje?” provoca outro baque, outra mudança. De alguma forma, sente-se o poder transformador da linguagem e, como um tremendo paradoxo, sua utilização para expressar um dos temas recorrentes desse momento: o problema da incomunicação. Recordemos que, nesses anos, no Chile o dramaturgo Jorge Diaz, com El cepillo de dientes, unia-se a essa tendência.

Então, nesse contexto, esse jogo realizado pelos personagens para evitar a rotina, jogo que definitivamente também efetua uma rotina, não tem motivo para nos surpreender. É parte de uma realidade manifesta. Por isso mesmo, quando Pinter assinala: “Trato com personagens em situações limites de sua existência quando se encontram solitários, no momento em que voltam a seus dormitórios e enfrentam o problema básico de existir”, apresenta-nos um panorama bastante desolador, diante do qual só cabe provocar este desdobramento, à margem da dor implícita em sua essência. Ironia. Confusão de planos. Ambigüidade. Perda da identidade. Necessidade afetiva. Todos estes elementos confluyen numa obra intensa, lúcida, devastadora. Como para seguir perguntando ” seu amante vem hoje?”. Como para continuar brincando. Ficção ou realidade?

De sua extensa produção, no Chile representaram as seguintes obras: O encarregado, O serviço, Feliz aniversário, O Monta Cargas, Regresso a casa. O amante, Traição e Velhos tempos. Também podemos acrescentar outros textos importantes, como O Quarto, O garçom mudo, Silêncio, Terra de ninguém, Alguém no caminho, Montanha de linguagem, A nova ordem mundial e Celebração. De algumas, sobretudo da primeira etapa, gostaríamos de mencionar certos aspectos.”

Continua aqui.

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