O que chamamos de dramaturgia moderna e contemporânea brasileira

Garimpando na net, encontrei esse texto no site Dramaturgia Contemporânea, que dá uma breve – e mesmo assim precisa – releitura do que é essa quimera chamada dramaturgia contemporânea. Pra quem tem pouca bagagem, como eu, serve como uma bela apresentação de nomes importantes do teatro na história brasileira. Fica a dica pra quem tem um tempinho e interesse a mais:

“A moderna dramaturgia brasileira tem como marco fundamental dois textos: Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, de 1943 e Eles Não Usam Black Tie, de Gianfrancesco Guarnieri, de 1958. Apesar dos quinze anos que separam as duas peças elas são identificadas com um mesmo período: o do surto desenvolvimentista pelo qual o país passou entre as décadas de 40 e 50. Vestido de Noiva, que teve sua primeira encenação no mesmo ano em que foi escrita dirigida pelo polonês Ziembinski, ficou durante longo tempo como um marco isolado desse novo momento que despontava na cena nacional. Ao lado do Teatro Brasileiro de Comédia, em São Paulo e Os Comediantes no Rio de Janeiro, a cena nacional era desenvolvida através da montagem nacional de peças estrangeiras importadas por essas companhias teatrais que tinham nos atores e nos diretores seu foco principal.

É nesse cenário que é fundado em 1953, por José Renato, recém saído da Escola de Arte Dramática (EAD) o Teatro de Arena, primeira companhia que tinha como projeto o desenvolvimento de um teatro marcadamente nacional e que iria colocar em primeiro plano os autores brasileiros. Isso se efetiva em 1958 com a peça Eles Não Usam Black Tie, de Gianfrancesco Guarnieri, que pela primeira vez colocava no palco os assuntos prementes da época, tais como as greves políticas e a emancipação da mulher.

Essa modernização iniciou-se no TBC, que inaugurou no país a tradição de montagens dos mais importantes textos contemporâneos produzidos no exterior. Além disso, com o advento da segunda guerra mundial, vários diretores teatrais vieram aportar no Brasil e auxiliaram na renovação de nossa cena, como os italianos Ruggero Jacobi e Giannni Ratto, o já citado polonês Ziembinski, entre outros.

Por sua estrutura de pequena empresa teatral, no nascedouro o Arena era uma espécie de “primo pobre” do TBC, mas com o passar do tempo o grupo foi fundando um projeto específico dentro do nacionalismo crescente, que tinha seu símbolo máximo no presidente da república recém empossado- tomou posse em 1956-, Juscelino Kubitschek. Época que tinha como lema o famoso “cinquenta anos em cinco”. O surto desenvolvimentista influenciava todas as áreas e, atingiu também o teatro, que até então não tinha sido nem tocado pelo modernismo do início do século. Cinco anos depois da fundação do Teatro de Arena, em 1958, era fundado também em São Paulo o Teatro Oficina, que ao lado do Arena, marcou esse momento de “modernização” do teatro nacional.

Após a montagem de alguns textos estrangeiros, a discussão sobre o papel do autor nacional toma o Arena de chofre e faz com que em 1957 seja ali fundado um curso de dramaturgia coordenado pelo diretor e dramaturgo Augusto Boal- pois ele já tinha estudado nos EUA e conhecia técnicas dramatúrgicas e de direção -ensejou também o aparecimento do texto Eles Não Usam Black Tie, de Gianfrancesco Guarnieri. Após esse texto, o Teatro de Arena funda o Seminário de Dramaturgia que reunirá os integrantes do grupo e de fora dele para encontros semanais onde o texto teatral será debatido e produzido. Daí sairão autores como Oduvaldo Vianna Filho, o Vianninha e Chico de Assis.

Nessa época de intensa modernização do teatro nacional, autores despontam em diferentes estados: em 1955, Jorge Andrade escreve A Moratória, em São Paulo. Em 1956 é escrito, no Recife, O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. Em 1958, o já citado Eles Não Usam Black Tie, de Gianfrancesco Guarnieri. Seguindo a criação no Arena, Vianninha escreve em 1959, Chapetuba Futebol Clube. Em 1960, no Rio de Janeiro, Dias Gomes escreve seu antológico O Pagador de Promessas e Augusto Boal escreve A Revolução na América do Sul.

A década de 60 inicia-se, assim, com importantes peças e um cenário efervescente de jovens dramaturgos antenados com os temas importantes do momento histórico. Em 1967 o estilo cru de Plínio Marcos adentra a cena com força total com a peça Dois Perdidos Numa Noite Suja. Esse processo sofre um drástico corte com o advento do golpe militar, em 1964. A década de 70 apresenta autores lutando para driblar a censura cada vez mais feroz. Essa década vê nascer uma geração de mulheres como Leilah Assunção, Consuelo de Castro e Maria Adelaide Amaral, que ao lado de Zé Vicente, João das Neves e Antônio Bivar farão textos que refletirão o momento de censura pelo qual o país passava. O final da década de 70 e início dos anos 80 vê dominuir o papel do dramaturgo e dos textos teatrais, reflexo do movimento de censura. Essa ficará conhecida como a década dos encenadores e terá as encenações marcantes de diretores como Antunes Filho, em São Paulo e de grupos como Asdrúbal Trouxe o Trombone no Rio de Janeiro.

Os anos 90 iniciam com o surgimento de uma geração de autores que vêm escrevendo de maneira mais continuada desde a década anterior, como Luís Alberto de Abreu e Bosco Brasil. Os dramaturgos desse período retomam a tradição do início desse processo e partem para a ação, muitas vezes montando e atuando em seus textos, como é o caso de Mário Bortolotto, dramaturgo, diretor e ator paranaense que desponta na cena teatral paulistana com seu grupo Cemitério de Automóveis depois de uma década  de trabalho em seu estado de origem. Nos anos 90 houve algumas tentativas de volta ao trabalho coletivizado de estudo e criação de textos. Um bom exemplo disso foi o Grupo dos Dez, dirigido por Luís Alberto de Abreu, que trouxe à cena dramaturgos como Mário Viana, Antônio Rocco, Marici Salomão, entre outros.

O final dos anos 90 virá surgir uma dramaturgia coletivizada, realizada dentro dos grupos de pesquisa teatral, o que ficará conhecido como Processo Colaborativo. Grupos como Cia do Latão e Teatro da Vertigem, irão trazer um novo olhar sobre o texto e sobre a cena teatral. Ao mesmo tempo muitos autores continuam realizando seu trabalho autoral, como Aimar Labaki, Fernando Bonassi, Samir Yazbek, entre outros. Os estudos de dramaturgia voltam a aparecer com mais assiduidade e nos anos 2000 muitos novos autores chegam à cena: Newton Moreno, com seu premiado Agreste, Sérgio Roveri e autores jovens que levam seus textos à cena como João Fabio Cabral, Fabio Torres, Marcos Gomes, Leonardo Cortez, entre tantos outros. Assim, no atual momento há muitos autores despontando no cenário teatral, com a característica marcante de levar seu texto à cena, dirigindo e atuando em suas próprias criações.

Breve panorama sobre o papel do texto teatral

A discussão sobre o papel do texto na cena teatral segue sem muitos sobressaltos, com a idéia da hegemonia do texto, do século XVII até fins do século XIX quando as vanguardas artísticas, acentuadamente as ocorridas na Rússia, tendo à frente os diretores Meyerhold e Stanislavski, chacoalharam a arte da representação teatral, trazendo para primeiro plano o encenador e os atores. Na esteira desse debate surgem Artaud, na década de 20, na França; Brecht, na década de 30, na Alemanha- que se não punha em cheque o texto em si, o reestabelecia, com o teatro épico, em bases completamente diferentes das propostas até então pela tradição dramática. Esse movimento segue com o surgimento na década de 50 do chamado teatro do absurdo, que põe em cheque o nexo até então considerado como “totem” sagrado do texto teatral.”

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